RS: 65% dos produtores de leite abandonaram a produção de leite em 10 anos
20 de agosto, 2026
O Rio Grande do Sul vive uma transformação silenciosa e implacável na sua pecuária leiteira. Em 2015, eram 84.199 produtores fornecendo leite à indústria. Em 2025, restaram 28.946 – ou seja, 55.253 famílias abandonaram a atividade em apenas dez anos, uma queda de 65,6%, segundo dados da Emater/RS-Ascar. Não obstante, a produção total do Estado não caiu. Quem ficou, produz mais.
O volume estadual se manteve estável em torno de 3,84 bilhões de litros por ano (contra 3,83 bilhões em 2023). O que explica esse equilíbrio é a tecnificação: a produtividade das vacas saltou de 11,8 para 17 litros/dia e o volume médio por propriedade mais que dobrou: de 137 para 364 litros/dia. O rebanho encolheu em 27,2 mil vacas em dois anos, mas cada propriedade hoje opera com média de 25 animais (quase o dobro de 2015).
"A atividade está se concentrando em produtores mais tecnificados. O pequeno sai, mas os que ficam conseguem manter a produção com menos animais", resume Jaime Ries, técnico da Emater.
O estudo aprofundado das causas sistêmicas deste fenômeno, concluído nesta semana, projeta as tendências de longo prazo em detalhes. E o cenário é de concentração absurda: se nada diferente for feito logo, em 25 anos o RS terá menos de 2.800 produtores produzindo os mesmos 10,5 milhões de litros/dia.

Fonte: Wagner Beskow (publicado no Facebook)
Por que o pequeno está indo embora?
Os números da Emater e do mercado escancaram as causas. Entre os principais fatores:
- Queda no preço pago ao produtor;
- Importação recorde de lácteos;
- Custo de produção elevado;
- Falta de mão de obra no campo; e
- Crise de sucessão familiar.
O presidente da Emater/RS-Ascar, Luciano Schwerz, não esconde a gravidade: "A bovinocultura de leite enfrenta um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. O produtor precisa se preparar para um futuro melhor. Muitos acabam ficando pelo caminho."
Concentração não é só no campo
O êxodo gaúcho espelha um movimento nacional. Levantamento da Abraleite mostra que os 17 maiores laticínios do Brasil captaram 9 bilhões de litros em 2023 (37% de todo o leite sob inspeção no país). E o dado mais duro: a produção total do Brasil não cresce há dez anos; o que houve foi migração do leite informal para o formal e dos laticínios menores para os maiores. A indústria compra mais volume para ganhar escala e cortar custos, enquanto milhares de pequenos produtores são deixados para trás.
No RS, a atividade ainda é pilar da economia: movimenta cerca de R$ 10,7 bilhões por ano e ocupa a quinta posição no Valor Adicionado Bruto do Estado. A produção está distribuída em 451 municípios, mas fortemente concentrada em 273 cidades, que respondem por mais de 85% do leite, com 173 laticínios em operação.
O que pode ser feito?
O estudo aponta que a saída não é aceitar a concentração como destino inevitável. Entre os caminhos defendidos pela cadeia: políticas de redução de custos de produção, agroindustrialização para agregar valor e fortalecer a renda no meio rural, suporte técnico às famílias que permanecem e programas como o Terra Forte e o Milho 100%, voltados à recuperação de solos e à produção de forrageiras.
A pergunta que fica para a indústria, para o poder público e para toda a cadeia é direta: quantos produtores ainda precisam sair antes que a conta fique cara demais para todos?
Fontes: Emater/RS-Ascar, Abraleite e Wagner Beskow (página pessoal no Facebook)








































