Victor Breno Pedrosa


Zootecnista, Prof. Dr. de Melhoramento Animal e Estatística

vbpedrosa@uepg.br

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Como os touros internacionais são comparados?

11 de março, 2019

Autor: Dr. Victor Breno Pedrosa*

Em muitos países, assim como no Brasil, a utilização de sêmen de touros importados é bastante comum. O que antigamente era privilégio de grandes rebanhos, hoje é acessível a propriedades dos mais diversos tamanhos, graças aos avanços na utilização de biotecnologias, dentre elas, a inseminação artificial.

Lembro que há quase vinte anos, quando comecei a trabalhar com melhoramento genético animal, alguns criadores diziam “meu rebanho é pequeno, o tal do melhoramento genético não é para mim”. No entanto, nos dias de hoje, todo criador pode “se permitir” a fazer uso de uma genética de “ponta” em seu rebanho e, por meio da disseminação do uso da inseminação artificial, isto tornou-se uma realidade.  Contudo, uma dúvida que ainda persiste na cabeça do criador é “como posso comparar um touro criado nos Estados Unidos com outro criado na Holanda, por exemplo, já que estes foram criados em condições ambientais distintas?”

A resposta está a milhares de quilômetros de distância do Brasil, mais especificamente na Suécia, onde há uma instituição internacional responsável por esta tarefa, chamada de INTERBULL. Mas para chegar lá, vamos conhecer um pouco da história.

Na década de 70, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), iniciou um trabalho para obtenção de touros que fossem internacionalmente testados, utilizando aproximadamente 80 mil doses de touros da raça Holandesa testados em 70 fazendas espalhadas por 10 países. Este trabalho, apesar de não garantir que os touros testados fossem apresentar excelente desempenho em qualquer localidade, visto que os primeiros modelos estatísticos estavam em desenvolvimento, ao menos estimulou fortemente o comércio internacional de sêmen de gado leiteiro importado. 

Na sequência, por muitos anos, os modelos estatísticos foram aperfeiçoados e os testes de touros internacionais cada vez mais difundidos, até que em 1995, o Serviço Internacional de Avaliação de Touros (Suécia) introduziu o método MACE (do termo em inglês: Multiple Across Country Evaluation, ou na tradução livre: Avaliação Múltipla entre Países), que permitiu que o INTERBULL gerasse os valores genéticos (identificação do mérito genético individual) para cada touro, em cada país participante simultaneamente, conforme pode ser observado abaixo:

Note que no esquema acima, nem sempre o touro número 1 na avaliação nacional, será o touro número 1 em seu país após a avaliação internacional. Isso demonstra o quão importante é a avaliação genética internacional, visto que são apontados os touros que possuem a melhor genética para as condições ambientais onde as fêmeas (filhas destes touros) serão criadas.

Atualmente, trinta países participam das avaliações internacionais de touros. O serviço inclui características de produção, tipo, fertilidade, longevidade e saúde, para todas as principais raças de leiteiras utilizadas no mundo. Infelizmente, o Brasil ainda não é um dos participantes da avaliação internacional, fato que pode ser atribuído, por exemplo, a uma maior necessidade de controle de dados oficial, nos rebanhos de todo o país.

A realidade é que o controle leiteiro oficial, bem como, o controle de pedigree ainda se concentra em algumas poucas bacias leiteiras, o que torna o processo de avaliação genética mais limitado. Contudo, o interesse genético do criador brasileiro tem aumentado consideravelmente, o que pode melhorar os anseios pela melhoria na coleta de dados e, por consequência propiciar melhores condições de avaliação genética nacional e, quem sabe, em breve, internacional. Particularmente, luto e torço muito para que isso aconteça, o mais rápido possível.

Maiores informações das avaliações genéticas internacionais podem ser acessadas nos websites: interbull.org ou dairybulls.com 

Um abraço e lhe aguardo para nossa prosa sobre melhoramento genético no próximo mês. 

 

*Victor Breno Pedrosa - Professor Doutor na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Possui graduação em Zootecnia, e Mestrado pela USP (Universidade de São Paulo). Tem especialização em Animal Genomics pela University of Guelph (Canadá) e Doutorado em Zootecnia pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo Institut für Nutztiergenetik (Alemanha). É coordenador do LeMA - Laboratório de estudos em Melhoramento Animal.

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