O Estado não pode atrapalhar quem produz
08 de outubro, 2026
Produzir leite no Brasil nunca foi fácil. Mas, além dos desafios dentro da porteira, o produtor precisa enfrentar problemas que não dependem dele e que, muitas vezes, são consequência de decisões tomadas pelo poder público.
Entre as atividades do agronegócio, a pecuária leiteira é uma das que mais sentem os efeitos da economia e das políticas dos governos. Quando as coisas vão bem, o setor pode crescer. Quando vão mal, o produtor costuma ser um dos primeiros a sentir no bolso.
E existe uma razão muito simples para isso: a maior parte do leite produzido no Brasil é consumida pelos próprios brasileiros.
Ou seja, para o produtor de leite ganhar dinheiro, o consumidor também precisa ter dinheiro para comprar.
Quando a renda das famílias fica apertada, as contas aumentam, os juros pesam e o endividamento cresce, sobra menos dinheiro para colocar leite, queijo, iogurte e outros derivados na mesa. E, quando o consumo não acompanha a produção, a pressão sobre os preços acaba chegando ao produtor.
É uma conta que não fecha.
O Brasil enfrenta problemas que não são de hoje. Temos uma carga tributária complexa, crédito caro, estradas ruins, burocracia em excesso, desperdício de dinheiro público e falta de planejamento de longo prazo.
E não adianta colocar toda a culpa em um governo ou em outro. Esses problemas vêm de muitos anos e continuam prejudicando quem trabalha e produz.
Também precisamos discutir a forma como o dinheiro público é utilizado. Programas sociais são importantes para ajudar quem realmente precisa, mas devem caminhar junto com oportunidades de emprego, qualificação e geração de renda. Afinal, o objetivo deve ser melhorar a vida das pessoas e permitir que cada vez mais famílias consigam caminhar com as próprias pernas.
Equilíbrio social não significa colocar todos no mesmo patamar, nivelando por baixo, mas sim criar condições para que todos possam melhorar de vida, crescer e prosperar.
E isso interessa diretamente ao produtor de leite.
Dentro da porteira, a realidade é outra
Enquanto as discussões políticas acontecem em Brasília, na fazenda o trabalho não para.
A vaca precisa comer todos os dias. A ordenha precisa ser feita. O funcionário precisa receber. A energia elétrica chega todo mês. O financiamento vence. O diesel, os medicamentos, a manutenção das máquinas e tantos outros custos continuam chegando.
Mas o preço do leite nem sempre acompanha essa realidade. O mercado é "soberano".
O produtor pode investir em genética, melhorar a alimentação do rebanho, aumentar a produtividade, controlar custos e fazer uma gestão cada vez mais profissional. Tudo isso é fundamental.
Mas existe um limite.
Não adianta produzir cada vez mais se, no final do mês, não sobra dinheiro.
E essa talvez seja a maior preocupação da pecuária leiteira brasileira: a falta de margem.
O produtor não precisa apenas produzir bem. Precisa ganhar dinheiro com aquilo que produz.
Sem margem, não há como investir. Sem investimento, fica difícil melhorar a produtividade. E, sem perspectiva de resultado, muitas famílias acabam desistindo da atividade.
Quando um produtor deixa de tirar leite, o prejuízo não fica apenas na propriedade. Atinge o comércio da cidade, a cooperativa, o transportador, a indústria, os fornecedores e todos aqueles que dependem, direta ou indiretamente, do leite.
O que precisamos dos governos?
Não estamos defendendo que o governo resolva todos os problemas da pecuária leiteira, muito menos que o produtor dependa permanentemente de ajuda pública.
O que precisamos é de condições para trabalhar.
Precisamos de uma economia estável, juros que permitam investir, impostos mais simples, estradas em boas condições, regras claras e políticas que não mudem a cada troca de governo.
Precisamos também de atenção ao mercado de lácteos, às importações e às condições de concorrência, para que o produtor brasileiro possa competir de maneira justa.
E, principalmente, precisamos que as decisões tomadas pelo poder público considerem seus efeitos sobre quem está produzindo.
O Estado tem um papel importante na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura, na pesquisa e na criação de condições para o desenvolvimento. Mas precisa gastar bem, planejar melhor e entender que os recursos públicos não são infinitos.
Não podemos continuar pensando apenas na próxima eleição. O Brasil precisa pensar nos próximos dez, vinte ou trinta anos.
O produtor precisa de resultado, não de discurso
Quem está na atividade leiteira sabe que não existe milagre.
Para uma propriedade dar resultado, é preciso planejamento, investimento, trabalho, conhecimento e muita dedicação.
O produtor é cobrado todos os dias para ser mais eficiente. Precisa produzir mais por vaca, melhorar a qualidade do leite, reduzir desperdícios e controlar cada centavo.
Essa cobrança é correta. Faz parte de qualquer negócio.
Mas fica uma pergunta: se o produtor precisa fazer a lição de casa, por que o poder público não precisa fazer a dele?
Não é justo exigir eficiência dentro da fazenda enquanto, fora dela, continuam a burocracia, os desperdícios, a infraestrutura deficiente e a falta de previsibilidade.
A pecuária leiteira brasileira tem potencial para crescer, gerar empregos, movimentar a economia e alimentar milhões de pessoas. Temos bons produtores, tecnologia e conhecimento.
O que não podemos é continuar tratando a rentabilidade do produtor como um detalhe.
A margem do produtor não pode ser aquilo que sobra depois que todos os outros elos da cadeia fizeram suas contas.
Precisamos de uma mudança de postura. Menos discurso, menos improviso e mais planejamento. Menos obstáculos e mais condições para quem quer trabalhar e investir.
Defender isso não é ser de direita ou de esquerda. Não é defender um governo ou atacar outro.
É defender quem produz.
Porque, no fim das contas, o produtor de leite não quer privilégio. Quer poder trabalhar, pagar suas contas, investir na propriedade, sustentar sua família e ter orgulho de continuar na atividade.
O produtor faz a parte dele todos os dias, inclusive aos domingos e feriados.
Está na hora de o Estado fazer a sua. E, principalmente, parar de atrapalhar.










































