Turbulência no Oriente Médio expõe o setor de lácteos a novos desafios

Turbulência no Oriente Médio expõe o setor de lácteos a novos desafios

10 de março, 2026

Dez dias após a mais recente escalada do conflito no Oriente Médio, o impacto de longo prazo ainda é incerto, mas os efeitos no curto prazo já são bem claros.

O tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz (imagem abaixo) foi fortemente afetado, com alta expressiva nos prêmios de seguro. Algumas empresas de navegação suspenderam operações no Mar Vermelho devido ao risco de ataques por rebeldes Houthis (apoiados pelo Irã). Isso força rotas mais longas, aumenta o tempo de trânsito, gera atrasos e eleva os custos de frete.

O ponto-chave é que Ormuz é uma rota crítica para petróleo e gás: quase 30% do petróleo global e 20% do gás natural liquefeito (GNL) passam por ali. A maior parte vai para a Ásia, com China, Índia, Japão e Coreia do Sul como principais destinos do petróleo bruto. E não existe uma rota alternativa simples: oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados poderiam desviar algo em torno de 2,6 milhões de barris/dia (segundo a U.S. Energy Information Administration), muito abaixo dos cerca de 20 milhões de barris/dia que atravessam Ormuz, em média.

Fertilizantes no centro do risco (e isso pesa no custo do leite)

Interrupções no fluxo de petróleo e gás podem repercutir “lá atrás” na cadeia. Entre 20% e 50% dos embarques globais de fertilizantes passam por Ormuz, o que deixa o mercado extremamente exposto. Somado à alta do gás, a crise tende a pressionar fabricantes de fertilizantes e empurrar preços para cima.

A seguir, os principais insumos/fertilizantes ligados ao corredor de Ormuz:

Enxofre (insumo essencial para fertilizantes fosfatados)

Cerca de 50% do comércio marítimo global de enxofre tem origem no Golfo Pérsico.

  • Volume: ~20 milhões de toneladas/ano
  • Principais destinos: China, Marrocos, Tunísia e mineração no sul e centro da África

Ureia

Aproximadamente um terço do comércio marítimo global de ureia vem do Golfo Pérsico.

  • Exportações: ~18 milhões de toneladas/ano
  • Total global: ~56 milhões de toneladas/ano
  • Principais compradores: Brasil, Índia, Tailândia, Austrália

Amônia

Cerca de 20% do comércio marítimo global de amônia vem do Golfo Pérsico.

  • Embarques: ~365 mil t/mês (≈ 4,4 milhões t/ano)
  • Principais compradores: Índia (~830 mil t), Marrocos (~315 mil t), Coreia do Sul (~335 mil t)

Fosfatados (MAP e DAP)

  • 20% do comércio marítimo global de MAP
  • 14% do comércio marítimo global de DAP

A Arábia Saudita (Ma’aden) é o principal exportador. Tudo sai via Ras al‑Khair, exigindo trânsito por Ormuz. A Índia costuma ser o maior destino de DAP no 3º trimestre.

Ácido sulfúrico (importações para o Golfo)

A Arábia Saudita deve importar ~700 mil toneladas de ácido sulfúrico em 2025 via Ras al‑Khair.

  • ~500 mil toneladas já teriam sido importadas nos primeiros sete meses (principalmente de Índia e China)
  • Também depende de Ormuz

Para o produtor de leite brasileiro, a leitura prática é direta: se fertilizante sobe, tende a subir também o custo da forragem (milho, pastagem, silagem) e, por tabela, o custo do litro de leite, especialmente em sistemas mais intensivos.

Custos industriais e consumo: mais pressão na margem

Se o conflito se prolongar, os custos de produção e de manufatura tendem a subir e as margens ficam apertadas. A pressão inflacionária também pode reduzir a disposição do consumidor, obrigando indústrias de alimentos e bebidas a repensarem preços. Isso pode adiar reduções de preço e prejudicar o consumidor.

Grãos, por enquanto, mais estáveis

Até agora, o mercado de grãos se manteve relativamente firme, com preços de oferta estáveis, apesar de uma alta no trigo global. O volume de grãos que passa por Ormuz é limitado: menos de 10% do comércio global de milho e menos de 5% para trigo e soja, com mais da metade indo para o Irã.

Segurança alimentar no Golfo e o efeito sobre o leite

O impasse aumenta a preocupação com segurança alimentar na região, que depende muito de importações de carne, lácteos, milho, soja, óleos vegetais e açúcar. Os lácteos vêm principalmente de Oceania e Europa; já a carne bovina importada vem com força de Brasil, Índia, Austrália e Nova Zelândia.

No leite, a Nova Zelândia é o maior exportador de lácteos para o Golfo. Quase 70% do que a Nova Zelândia embarca para a região são produtos lácteos. Cerca de 13% das exportações de leite em pó integral e 10% das exportações de manteiga vão para o Golfo, em grande parte para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Isso tem um potencial de disrupção importante, ao menos no curto prazo.

A Nova Zelândia também é vulnerável a choques de fertilizantes, pois mais de um quinto do fornecimento global do país vem da Arábia Saudita, embora o governo neozelandês tenha informado que há estoques domésticos suficientes para cobrir o período de outono.

Outro exportador relevante para o Golfo é a Irlanda e, segundo a entidade Dairy Industry Ireland, por enquanto as exportações não estão sendo muito afetadas. De forma mais ampla, a região tem ganhado importância para os irlandeses: em 2025, o país exportou alimentos e bebidas no valor de €370 milhões, alta de 7,5%.

“O verdadeiro desafio agora está na pressão crescente sobre as cadeias globais e no aumento inevitável de frete, energia e custos”, disse Conor Mulvihill, diretor da Dairy Industry Ireland. “Estamos trabalhando de perto com o governo, na UE e com nossos associados para reduzir esses custos e garantir o fluxo contínuo de nutrição irlandesa de alta qualidade para a região.”

Além do conflito: mercado global de lácteos já vinha sob pressão

Para as empresas globais de lácteos, existe ainda a tensão de administrar a pressão de preços das commodities, porque o crescimento da produção de leite segue acima das médias históricas. A expectativa era de normalização em 2026, mas o reequilíbrio provavelmente só ocorreria no 2º ou 3º trimestre, segundo Nate Donnay, diretor de inteligência de mercado de lácteos da StoneX.

Empresas que se destacaram nos últimos anos apostaram forte em eficiência, e talvez precisem apertar ainda mais a disciplina para compensar a alta de insumos. Ao mesmo tempo, existe demanda firme por produtos de maior valor agregado e ingredientes, com o setor se direcionando a itens de maior margem e nichos de crescimento.

Por enquanto, o maior risco da escalada no Oriente Médio segue “a montante” – nos insumos, no frete e na energia – e o setor acompanha de perto para ver se aumentos de preço, como sugeriu o presidente dos EUA Donald Trump ao dizer que seriam “um preço muito pequeno a pagar” para redesenhar a ordem regional, de fato se confirmam.

 

Fonte: Dairy Reporter

Traduzido e adaptado pelo Canal do Leite

Disponível em: https://www.dairyreporter.com/Article/2026/03/10/hormuz-disruption-threatens-inputs-for-global-dairy-sector/

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