Período Seco e Período Pré Parto

Período Seco e Período Pré Parto

26 de março, 2026

Escrito por Otto Enéas Manosso Junior*

 

Neste texto, apresentarei noções básicas sobre o manejo nutricional do rebanho leiteiro durante o período seco e o período pré parto. As dietas propostas foram ajustadas utilizando o software do NASEM 2021. Caso os produtores não disponham de algum dos alimentos aqui descritos, será necessário consultar um profissional para os devidos ajustes na dieta de ambas as fases, visando o atendimento das exigências nutricionais dos animais através da utilização dos alimentos (volumosos e concentrados) disponíveis. O texto, no entanto, não irá abordar o manejo, a separação de lotes, o conforto térmico, o espaçamento de cochos, os cuidados sanitários (vacinações, vermifugações), casqueamento preventivo, dentre outros, pois esse não é objetivo dessa abordagem.

O período seco constitui os 60 dias que antecedem a data prevista ao parto, sendo de extrema importância à regeneração do tecido mamário (células alveolares) e desenvolvimento complementar do feto (maior desenvolvimento ocorre no terço final da gestação). Neste curto período, não haverá condições de recuperação e/ou ganho de escore de condição corporal (ECC). O animal, ao secar, deverá apresentar um ECC ao redor de 3.0 (numa escala de 1 a 5). Não é interessante um ECC superior a 3.5 ao parto, pois, caso isso ocorra, muitos desafios serão enfrentados pelo animal logo no início da lactação, fase onde o animal será extremamente exigido em termos de ingestão adequada de matéria seca (IMS), na obtenção de pico de produção e rápido retorno ao ciclo reprodutivo.

Os 60 dias pré parto podem ser divididos em duas fases distintas, conforme descrito abaixo.

  • 60 – 25 dias pré parto: Nesta fase deveremos fornecer uma dieta para suprir as exigências nutricionais dos animais (proteína, energia, FDN, minerais e vitaminas) a fim de evitar perda de peso vivo (PV) pois, a data prevista do parto se aproxima e, a seguir, o animal apresentará, quase que com certeza, uma queda na IMS. Supondo um animal entre 480 – 500 kg PV e com ECC de 3,20, poderemos fornecer, diariamente: 15 kg de silagem de milho (33% MS e 30% Amido – base MS), manter os animais em pastagens de razoável a boa qualidade (13% PB), suplementando-os com 1,00 kg milho moído (fino) e 200 gramas de sal mineral vitaminado (pode-se utilizar o mesmo mineral das vacas em lactação). Tal dieta deve ser fornecida 5 dias após a secagem dos animais, principalmente a silagem de milho e o milho grão moído. Até lá, manter esses animais, exclusivamente, se alimentando de pastagens.
  • 25 dias pré parto até o parto: O período “pré parto” deve ser conduzido pelo produtor de leite com extrema eficiência, pois estamos preparando o animal para, em minha opinião, “o dia mais importante de sua vida produtiva”: o parto.

Caso este evento (o parto) ocorra sem nenhuma intercorrência, tais como hipocalcemia (subclínica e/ou clínica), retenção de placenta, cetose, torção de abomaso, edema de úbere, mastite, metrite, baixa IMS (Balanço Energético Negativo – BEN), o animal terá plenas condições de expressar seu potencial genético em termos de produção e, com certeza, a eficiência reprodutiva será alcançada (uma nova prenhez confirmada até o 100º dias pós parto).

Assim, torna-se imprescindível a utilização de uma “Dieta Aniônica” no período pré parto; ou seja, um balanceamento de dieta que apresente maior concentração (com base na MS) da soma dos ânions cloro e enxofre em relação à somatória dos cátions sódio e potássio fornecidos, descrita da seguinte forma:  [Cl + S] > [Na + K], expressa em mEq/kg MS da dieta. Valores menores que zero já propiciam resultados satisfatórios, sendo que valores de -50 a -100 mEq/Kg MS da dieta seriam ideais. A utilização deste manejo nutricional foi difundida, aqui no Brasil, no início dos anos 90 porém, até hoje, infelizmente muitas propriedades ainda não adotam esse manejo.

A explicação técnica em relação à funcionalidade desta dieta pode ser, muito resumidamente, descrita da seguinte forma:  Durante a lactação, a demanda pelo cálcio é alta, sendo as exigências atendidas através da atividade do paratormônio (PTH), secretado pela glândula paratireóide. O PTH atua na regulação da concentração normal de cálcio plasmático (8,5 a 10,4 mg/dL). Dentre as funções/atividades do cálcio no organismo, citamos:  Coagulação sanguínea; Contração muscular; Transmissão de impulsos nervosos; Regulação/Manutenção do equilíbrio fisiológico do organismo (Homeostase), atuando na temperatura corporal, frequência cardíaca, pressão arterial, pH sanguíneo; Secreção de hormônios (PTH – retenção de cálcio no organismo e Calcitonina – eliminação de cálcio do organismo). O PTH, por sua vez, atua: Liberando o cálcio dos ossos e disponibilizando-o no sangue; Convertendo a Vitamina D₃ ao composto Calcitriol (responsável pela absorção intestinal do cálcio dietético); Diminuindo a excreção renal de cálcio, com consequente reabsorção do cálcio nos rins. No entanto, durante o período seco, a paratireóide “adormece”, em função da baixa exigência nutricional deste mineral, pois não há produção de leite. Assim, quando ocorre o parto, a exigência de cálcio aumenta muito, tanto em termos de quantidade como em termos de velocidade de demanda desse mineral, já que “ontem” a vaca estava seca e “hoje” já está secretando colostro.

A produção de 10 kg de colostro “excreta” 23 gramas de cálcio, porém uma vaca de 600 kg PV possui apenas 3,0 gramas de cálcio sanguíneo prontamente disponível. Além disso, o organismo apresenta uma reação relativamente lenta à ação do PTH logo após o parto (cerca de 24 hs para uma resposta intestinal e ao redor de 48 hs para mobilização óssea do cálcio). Desse modo, se a concentração de cálcio sanguíneo for menor que 8,5 – 8,0 mg/dL teremos estabelecida a hipocalcemia subclínica e, em níveis menores que 5,5 – 5,0, estaremos diante de um caso de hipocalcemia clínica (vaca caída).

Portanto, deve-se manter a paratireóide “acordada”; ou seja, secretando PTH, durante o pré parto. Isto é obtido a partir do momento em que provocamos uma “Acidemia” (ligeira queda no pH sanguíneo). O valor normal do pH sanguíneo varia de 7,35 a 7,45). Através do fornecimento da “Dieta Aniônica”, estes valores se alteram ligeiramente fazendo com que este pH “anormal” deva ser corrigido/estabilizado através do aumento da concentração sanguínea de cálcio. Em casos de “Acidemia” o organismo se vê na obrigação de secretar o PTH visando abrandar esta disfunção do pH sanguíneo por meio do aumento da concentração plasmática de cálcio.

Muito embora o pH sanguíneo não apresente variações significativas, o pH da urina irá cair para níveis ao redor de 6,0 (5,5 – 6,5), sendo esse um indicativo da funcionalidade metabólica da dieta. Assim, o produtor pode aferir a efetividade da dieta aniônica através do monitoramento do pH urinário.

Para obter-se uma dieta com DCAD (Diferença Cátion Aniônica na Dieta) Negativa, ou seja, maiores níveis de ânions (Cl + S) em relação aos cátions (Na + K), é necessário trabalharmos com os seguintes sais aniônicos na dieta pré parto: Cloreto de Amônio, Cloreto de Amônio, Cloreto de Magnésio, Sulfato de Magnésio, Sulfato de Cálcio e/ou Sulfato de Amônio. A maioria destes produtos apresentam baixa palatabilidade sendo, muitas vezes, recusados pelos animais.

Com o exemplo de dieta pré parto, para animais entre 480 – 500 PV, podemos citar o fornecimento diário de 16 kg silagem de milho (33% MS e 30% Amido), 1,50 kg de feno de gramíneas em avançado estágio vegetativo (“passado” do ponto de corte) – menores % de K na MS) e, no caso da utilização de produtos Notável, produzidos pela Coagro Cooperativa Agroindustrial, de Capanema/PR, a suplementação com 2,50 kg da Ração Notável Pré Gold 22. Nesta dieta, o software do NASEM 2021 aponta um DCAD na ordem de -51 mEq/kg MS da dieta.

A utilização de dietas pré parto nas propriedades leiteiras torna-se indispensável quando se deseja alcançar bons índices de produtividade e reprodução no rebanho.

 

*Otto Enéas Manosso Junior

Beef Milk Representação Comercial

(Rações Notável – Coagro)

Assessoria Nutricional

Zootecnista – CRMV-3  0331/Z

Telefone – (44) 99173 0717

Whatsapp – (43) 99604 1200

otto.manosso@gmail.com

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