Como os 7 grandes irão moldar as exportações de lácteos em meio ao excesso global de leite
15 de janeiro, 2026
Com base nos dados anuais do USDA GAIN, analisamos as projeções de produção de leite fluido dos sete maiores exportadores globais de lácteos; quais categorias de exportação devem absorver os volumes adicionais; e o que isso pode significar para os mercados globais de lácteos.
Obesrvações
- MT = tonelada métrica (1.000 kg)
- Dados de leite fluido expressos em MT para padronização
- Os dados de produção dos EUA, originalmente em libras, foram convertidos para MT
- WMP = Leite em Pó Integral
- SMP = Leite em Pó Desnatado
- AMF = Gordura Anidra do Leite
Argentina: crescimento do leite impulsiona exportações mais fortes de pó e queijo
A produção deve aumentar cerca de 4%, alcançando 12,0 milhões de MT (ante 11,49 milhões de MT), por cinco fatores principais: condições climáticas e de pastagens favoráveis; grandes estoques de alimentos; aumento do número de vacas; taxa de câmbio estável; e expansão do rebanho.
Os volumes adicionais de leite devem sustentar as exportações, especialmente de leites em pó e queijo.
As exportações de Leite em Pó Integral (+15%); Leite em Pó Desnatado; Manteiga e Gordura Anidra do Leite (+9%),; Queijo (+9,52%); e Leite Fluido (10.000 MT, levemente acima de 2025) devem crescer em 2026.
Como contexto, a produção de leite fluido da Argentina se recuperou em 2025 após um fraco 2024, marcado por pressões econômicas e sobre o rebanho, incluindo relação leite/alimentação apertada, desvalorização do peso e redução do número de vacas.
O crescimento de cerca de 4% da produção argentina em 2026 impulsiona aumentos generalizados nas exportações, especialmente de WMP, SMP, manteiga/AMF e queijo.
Austrália: queijo lidera o crescimento das exportações
A produção de leite da Austrália deve se recuperar em 2026, com alta de 1,8%, atingindo 8,65 milhões de MT, graças a condições climáticas favoráveis, preços estáveis do leite ao produtor, baixos custos de alimentação e ganhos de eficiência.
O queijo será o principal produto de exportação, com previsão do USDA de 175.000 MT em 2026 – o maior volume desde 2008.
As exportações de Leite em Pó Desnatado (SMP) devem permanecer estáveis em 155.000 MT, com produção estagnada e demanda chinesa fraca.
As exportações de Leite em Pó Integral (WMP) devem cair 13%, para 45.000 MT, devido à menor produção e ao maior direcionamento de leite para a fabricação de queijo e manteiga.
As exportações de Manteiga devem permanecer limitadas a 9.000 MT.
A Austrália se recupera em 2026 com maior produção de leite e seu melhor desempenho exportador de queijo desde 2008, enquanto os leites em pó perdem força.
Brasil: dependência contínua das importações
A produção de leite deve crescer 2,6% em 2026, alcançando 26,16 milhões de MT, ante a estimativa revisada do USDA para 2025 de 25,5 milhões de MT. A projeção é sustentada por ganhos de eficiência produtiva, avanços tecnológicos e melhorias genéticas.
Apesar da expansão da produção, as exportações não devem crescer de forma significativa em 2026. Algumas categorias apresentam leves aumentos:
- Queijo: crescimento para 4.000 MT, ante 3.000 MT, impulsionado pela expansão da produção doméstica.
- Manteiga: exportações estáveis em cerca de 2.000 MT, sustentadas pela forte demanda interna.
- WMP: estável em 3.000 MT, com o setor pouco propenso a ampliar a produção.
Assim como a China, o Brasil é um ator-chave no mercado de importações.
Em 2026, o país seguirá dependente de leite em pó, com importações relevantes de lácteos processados:
- WMP, principal item importado, deve recuar para 138.000 MT, ante 140.000 MT em 2025.
- SMP: volumes estáveis em 46.000 MT.
- Queijo: estável em 52.000 MT, em linha com 2025.
- Manteiga: importações estimadas em 2.000 MT, abaixo das 3.000 MT do ano anterior.
Apesar do aumento da produção, o Brasil segue fortemente dependente das importações, com apenas pequenos ganhos nas exportações de queijo, manteiga e WMP.
Destaque nas importações: China
O papel da China nos mercados globais de lácteos seguirá central, já que o país deve continuar como o maior importador mundial.
A demanda por soro de leite deve permanecer forte, impulsionada pelo uso em rações e fórmulas infantis.
As importações de queijo devem crescer, acompanhando a expansão do foodservice.
As importações de leites em pó devem permanecer estáveis, com leve queda nas importações de leite fluido.
No lado da produção, a China deve produzir praticamente o mesmo volume do ano anterior (41,51 milhões de MT contra 41,50 milhões de MT).
As exportações de queijo, manteiga e SMP devem permanecer estáveis, sustentadas pela forte demanda doméstica, com leves aumentos nas exportações de leite fluido (40.000 MT, ante 35.000 MT) e de WMP (55.000 MT, ante 50.000 MT), à medida que o país se afasta do WMP e avança para produtos de maior margem.
A consolidação das fazendas e os ganhos de produtividade nas grandes propriedades devem ser parcialmente compensados por preços fracos e pela saída de produtores do setor.
De forma geral, a produção chinesa deve permanecer estável, mantendo o país dependente das importações, especialmente de soro e queijo.
União Europeia: regulamentação e perda de rebanho reduzem exportações
A União Europeia deve registrar uma queda de 0,5% na produção de leite em 2026 (148,95 milhões de MT, ante 149,7 milhões de MT), em razão da redução do número de vacas (-0,9%), surtos de doenças e entraves regulatórios.
A maioria das categorias voltadas à exportação enfrenta retração:
- Queijo: -0,7%, devido a preços mais elevados e tensões geopolíticas
- Manteiga: -15%, com prioridade dada à produção de queijo
- Leite fluido: -7,2%, por menor produção e demanda fraca da China
- WMP: -11%, pressionado por preços e demanda
- SMP: -1,4%, devido a volumes menores de produção
A UE enfrenta queda na produção de leite e retração generalizada das principais exportações lácteas, em função da contração do rebanho e das pressões regulatórias.
Nova Zelândia: exportações recordes de queijo à vista
Em 2025, a Nova Zelândia registrou seu maior nível de produção de leite desde 2018 (22,0 milhões de MT). Para 2026, a produção deve atingir 21,9 milhões de MT, sustentando os volumes exportados.
O foco das exportações deve permanecer em produtos de maior valor agregado, como queijo, manteiga, AMF e ingredientes especiais, enquanto os leites em pó perdem participação.
As exportações de WMP devem ficar em torno de 1,395 milhão de MT, em linha com a capacidade recente.
As exportações de SMP, cerca de 445.000 MT, devem permanecer estáveis, com China e Indonésia como principais destinos.
As exportações de queijo devem atingir um recorde de aproximadamente 430.000 MT, impulsionadas pela forte demanda global.
As exportações de manteiga + AMF são estimadas em 515.000 MT.
As exportações de leite fluido devem se estabilizar em torno de 255.000 MT, com cerca de 75% destinadas à China.
A Nova Zelândia mantém produção robusta e aprofunda a mudança para exportações de maior valor, com o queijo alcançando níveis recordes.
Uruguai: crescimento das exportações guiado por preços
Os preços de exportação de todas as principais categorias — WMP, SMP, manteiga e queijo — aumentaram no último ano. No entanto, alguns produtos, especialmente SMP e queijo, registraram queda tanto em valor quanto em volume.
O WMP foi a única categoria com aumento simultâneo de volume e valor.
O SMP enfrentou dificuldades devido aos preços mais altos e à forte concorrência de outras regiões. O Brasil comprou 79% do SMP uruguaio, enquanto Argélia e Rússia responderam por 5% cada.
A alta nos preços da manteiga elevou o valor exportado, apesar da queda nos volumes. Arábia Saudita (23%), Rússia (21%) e Egito (8%) foram os principais destinos.
As exportações de queijo tiveram desempenho fraco, com 77% destinadas a mercados sul-americanos, incluindo Brasil, México e Chile.
O ano de 2026 pode abrir novas oportunidades para os exportadores uruguaios, com a aguardada ratificação do acordo comercial UE–Mercosul.
O acordo ampliará cotas de importação e reduzirá tarifas para produtos agrícolas-chave, incluindo queijo, o que pode permitir ao Uruguai diversificar gradualmente suas exportações para o mercado europeu.
O país segue altamente dependente da Argélia, que absorve a maior parte dos lácteos uruguaios, incluindo cerca de metade das exportações de WMP. Mudanças políticas ou econômicas no país devem ser acompanhadas de perto pelos exportadores uruguaios.
Apesar de uma queda em dezembro, os preços internacionais de WMP e SMP subiram em janeiro, com a demanda por ambos mostrando resiliência no longo prazo. Os preços do SMP na América do Sul permanecem elevados em relação à Oceania e à Europa.
Estados Unidos: exportações de queijo devem atingir novos recordes
Os EUA devem produzir 106,19 milhões de MT (234,1 bilhões de libras) de leite fluido, ligeiramente abaixo da projeção do USDA para 2025, de 104,96 milhões de MT (231,4 bilhões de libras). A revisão reflete a redução do número de vacas leiteiras, apesar do aumento da produtividade por vaca.
A produção de queijo deve crescer 3% e impulsionar o consumo e as exportações em 2026.
As exportações de queijo devem disparar para mais de 620.000 MT em 2026, superando as estimativas de 2025 (602.000 MT), graças à maior competitividade de preços.
Principais categorias de exportação dos EUA em 2026, por volume:
- Queijo: 621.000 MT
- SMP (NFDM): 668.000 MT
- Produtos de soro desidratado: 597.000 MT
- Lactose: 435.000 MT
- Manteiga e gordura do leite: 89.000 MT
- Produtos lácteos fluidos: 195 milhões de litros
Os EUA devem fortalecer sua posição como um dos principais exportadores globais de lácteos, liderados por embarques recordes de queijo e volumes robustos de SMP e soro.
Conclusão: queijo como principal produto de exportação
Com as exportações de queijo crescendo ou permanecendo estáveis em quase todas as grandes regiões (com apenas leve queda na UE), o queijo se consolida como o produto de exportação mais forte do setor lácteo em 2026.
As exportações devem ser sustentadas pela expansão recorde nos EUA, Nova Zelândia e Argentina, com mercados como a China também demonstrando forte apetite por queijo.
Os EUA se posicionam cada vez mais como um grande exportador de queijo, embora a UE deva manter a liderança global, mesmo com a contração da produção.
Essa expansão global do queijo é sustentada pela demanda, indicando que os volumes adicionais devem ser absorvidos pelo mercado, com espaço para crescimento adicional.
Fonte: Dairy Reporter
Disponível em: www.dairyreporter.com/Article/2026/01/08/global-dairy-market-outlook-2026-production-trade-trends/






































