Cinco impactos da crise no Oriente Médio sobre os lácteos globais
24 de março, 2026
A crise envolvendo o Irã continua reverberando nos mercados globais, com impacto direto em gargalos logísticos do Oriente Médio. Para a cadeia mundial do leite, a pressão já aparece no aumento dos custos de insumos, especialmente fertilizantes, ração e gás natural.
Desde o início do conflito, os preços de fertilizantes, petróleo e gás natural subiram, apertando as margens de produção. De forma mais ampla, os preços dos grãos – em especial milho, trigo e cana-de-açúcar – também vêm enfrentando tendência de alta, afetando desde a agricultura até o setor de biocombustíveis.
As rupturas nos fluxos comerciais também estão trazendo custos para os países do Golfo e para o restante da Ásia, com volatilidade tanto na oferta de alimentos quanto de combustíveis, o que estreita ainda mais as cadeias globais de suprimento.
A seguir, veja os cinco principais efeitos dessa crise sobre produtores e indústrias lácteas no mundo.
1. Disrupção no fornecimento de fertilizantes
O Golfo responde por até 30% das exportações globais de fertilizantes por meio do Estreito de Ormuz, com cerca de 30% a 35% das exportações mundiais de ureia e aproximadamente 20% a 30% das exportações de amônia oriundas da região.
Mas, com o transporte marítimo pelo estreito praticamente bloqueado, a disponibilidade de fertilizantes fica mais apertada, puxando os preços para cima e reduzindo a oferta. No primeiro semestre de 2026, a FAO projeta preços de fertilizantes entre 15% e 20% mais altos.
Se o bloqueio se prolongar, os produtores terão custos mais elevados na produção de grãos e forragens, o que pode reduzir a rentabilidade da pecuária leiteira, especialmente em sistemas mais intensivos.
2. Choque nos custos de alimentação
Esse movimento pode gerar efeito em cadeia sobre a disponibilidade e o custo da alimentação para bovinos leiteiros, elevando os custos de toda a cadeia produtiva.
Além disso, com a maior atratividade do setor de biocombustíveis, parte dos produtores de grãos pode direcionar mais área para essas culturas, reduzindo a oferta de ingredientes usados na alimentação humana e animal.
3. Menor produtividade futura das lavouras
Se os preços dos fertilizantes permanecerem elevados por mais tempo, os agricultores podem ser obrigados a reduzir seu uso, o que coloca as lavouras sob risco de queda de produtividade e de novas altas de preço.
Segundo a FAO, a aplicação reduzida de fertilizantes representa risco para Ásia, África e América Latina, podendo afetar os rendimentos de grãos e oleaginosas ao longo de 2026.
O efeito cascata é um mercado global de alimentos mais apertado, o que pode pressionar ainda mais as margens da pecuária leiteira e desacelerar o crescimento da produção depois de 2026.
4. Interrupção dos fluxos comerciais
Os países do Golfo são grandes importadores de alimentos, incluindo lácteos. Com a quase paralisação do tráfego marítimo por Ormuz e poucas rotas alternativas, a demanda de importação da região já enfrenta forte pressão, com embarques da Europa, Oceania e Sul da Ásia cada vez mais afetados.
A European Dairy Association informa que o Oriente Médio representa mais de € 2 bilhões por ano nas exportações de lácteos da União Europeia, mantendo-se como um mercado relevante para os produtos europeus. Até o momento, não houve uma interrupção material nas exportações para a região, mas os embarques passam a ocorrer em condições logísticas mais complexas, à medida que as rotas se ajustam ao cenário de segurança.
A Nova Zelândia é o maior exportador de lácteos da Oceania para o Golfo, com produtos lácteos somando US$ 2,3 bilhões, cerca de 70% de suas exportações totais para a região. O Ministério das Relações Exteriores e Comércio do país indica que os exportadores podem enfrentar desafios de curto prazo para redirecionar seus embarques a outros mercados.
Já o bloqueio às exportações do Irã traz implicações diretas para países como Iraque e Paquistão, que atendem grande parte de suas necessidades lácteas por meio do vizinho. Embora o Irã seja em grande medida autossuficiente em lácteos, o país é fortemente dependente de importações de alimentação para os animais, comprando praticamente todo o milho e volumes relevantes de oleaginosas via Estreito de Ormuz. Com o transporte comprometido, a produção tende a sofrer pressão.
5. Pressão sobre a demanda
As pressões na produção, causadas pela volatilidade prolongada de insumos e oferta, podem elevar a inflação de alimentos na região. No Irã, a inflação já é muito alta: +110% para alimentos em geral e +108% para lácteos e ovos na comparação anual. Isso afeta a confiança do consumidor e reduz a demanda, sobretudo por categorias premium de lácteos e por importados sensíveis a preço.
Segundo a FAO, a renda real caiu entre 14% e 18% durante o bloqueio, enquanto o consumo de alimentos recuou entre 17% e 20%.
Apesar disso, especialistas avaliam que as pressões de segurança alimentar dificilmente levarão a uma resolução rápida do conflito. O ex-economista-chefe do USDA afirmou que é “muito improvável” que as preocupações com segurança alimentar precipitem o fim da crise, especialmente porque o Irã pode ser o país mais afetado. Ele destacou ainda que a inflação de alimentos no país já era bastante elevada e que os estoques regionais de grãos permanecem relativamente confortáveis.
O maior risco para a região está na perda de receita com petróleo e fertilizantes, além do impacto sobre o turismo. O Oriente Médio também se consolidou como importante hub de transporte aéreo e o turismo é uma fonte relevante de receita. A região emprega muitos trabalhadores estrangeiros, que enviam remessas para suas famílias. Se a guerra se prolongar, turismo e outros setores podem ser fortemente atingidos.
Fonte: Dairy Reporter
Traduzido e adaptado pelo Canal do Leite
Disponível em: https://www.dairyreporter.com/Article/2026/03/19/how-the-iran-conflict-is-disrupting-global-dairy-supply-chains/





































