A sustentabilidade começa no básico

A sustentabilidade começa no básico

03 de fevereiro, 2026

Janeiro é o mês dos começos. Começo de ciclo, de planejamento, de decisões que vão moldar o ano. E também pode ser o momento de recomeçar. Não com rupturas, mas com reencontros. Cuidando do que sustenta de fato a produção: vaca saudável, solo vivo, gente engajada, dados que fazem sentido. Antes de buscar soluções mirabolantes, é no básico que tudo começa, e é ali também que a sustentabilidade se firma. 

Assim como no trecho da música “De janeiro a janeiro”, de Roberta Campos, popularizada na interpretação de Nando Reis, que inspira o título desta coluna, falamos de dedicação contínua, sem data de validade. É esse tipo de compromisso que sustenta a pecuária leiteira: amor pelo ofício, cuidado diário com os animais, respeito pela terra, todos os dias, em todas as estações. 

O campo não espera. Chove, seca, esfria, esquenta e a vida segue. As vacas são ordenhadas, os pastos manejados, os dados registrados. Nesse contexto, sustentabilidade não pode ser um projeto pontual. Ser sustentável é um processo contínuo, cultivado como uma relação: com presença, paciência e propósito. 

Compromisso diário com o essencial 

Falar em sustentabilidade de janeiro a janeiro é reconhecer que não há transição sem perseverança. Que nenhum selo, meta ou relatório substitui o manejo cuidadoso da vaca que segue no rebanho por mais uma lactação. O solo que não é deixado exposto entre safras. O técnico que visita a propriedade mesmo nos dias difíceis. 

É esse o amor que sustenta. Não aquele que brilha nos grandes anúncios, mas aquele que permanece mesmo quando ninguém está olhando. Porque este é o que se transforma em estratégia quando é acompanhado de dados. Sustentabilidade, no fundo, começa no que é essencial, e no que se faz bem, todos os dias.

O exemplo dos EUA 

Entre 1999 e 2024, os Estados Unidos aumentaram sua produção de leite em aproximadamente 39%, com apenas 2,2% de crescimento no número de vacas. Esse ganho extraordinário de produtividade reduziu em 26% a emissão de metano entérico por kg de leite produzido, segundo dados apresentados por Martha Baker (Alltech) durante o Dairy Vision 2025. Em um século, as emissões absolutas por kg de leite caíram mais de 70% no país, impulsionadas por genética, nutrição, manejo e eficiência reprodutiva, atendendo ao crescimento populacional e ao aumento da demanda. 

Contudo, como destacou Baker, parte significativa desse progresso não foi mensurada com foco em mudança climática, nem integrada a mecanismos de reporte ou geração de créditos de carbono. O setor reduziu emissões, mas não converteu esse avanço em reconhecimento ambiental ou em valorização no mercado de carbono, perdendo oportunidades que não podem se repetir.

Qual a oportunidade para o Brasil? 

A produção de leite no país apresenta grande diversidade entre as fazendas. Uma parcela já alcança produtividade comparável à das propriedades norte-americanas, mas a maioria ainda apresenta baixa produção por animal. Essa disparidade expõe desigualdades técnicas e estruturais, e, ao mesmo tempo, representa uma das maiores oportunidades de mitigação de emissões do setor. 

Reduzir esse abismo produtivo é, simultaneamente, uma estratégia de eficiência econômica e uma ação climática concreta. Quanto mais leite uma vaca produz dentro de um sistema bem manejado, menor é a pegada de carbono por kg de leite. Mas isso só se viabiliza com gestão: medir, planejar, ajustar e acompanhar resultados com consistência. 

Enquanto os EUA mostram que é possível reduzir a intensidade de emissão de metano com ganhos produtivos, o Brasil tem a chance de ir além, conectando produtividade e sustentabilidade desde o início, com ferramentas de mensuração e relatórios consistentes que gerem valor técnico, ambiental e comercial. 

Cabe a nós transformarmos essa chance em realidade, começando pelo dia a dia: como estruturamos o rebanho, como cuidamos do solo, como alimentamos os animais e como conectamos informações ao manejo. A sustentabilidade da pecuária não depende de promessas futuras, mas de práticas sólidas, começando agora.  

Estrutura de rebanho: um ativo ambiental (e produtivo) muitas vezes ignorado 

A estrutura do rebanho tem impacto direto na rentabilidade, na eficiência produtiva e na sustentabilidade ambiental das fazendas leiteiras. Apesar de ser muitas vezes negligenciada, é uma das áreas com maior potencial de melhoria prática e mensuração objetiva dos avanços.

Estudos demonstram que fazendas com maior descarte de vacas em lactação e menor proporção de vacas em produção em relação ao rebanho total tendem a apresentar maior intensidade de emissão de gases de efeito estufa. Isso ocorre mesmo quando outras áreas da fazenda, como pastagens e energia, apresentam bons indicadores. Ou seja, a sustentabilidade começa no básico: manter vacas boas produzindo por mais tempo. 

Os impactos da estrutura reprodutiva do rebanho foram aprofundados em dois trabalhos apresentados no 37º Encontro Anual da SBTE (Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões), em 2024. O estudo de Abreu et al. mostrou que rebanhos com baixa eficiência reprodutiva, definidos por taxas de prenhez reduzidas, longos intervalos entre partos e altas taxas de descarte, apresentam composição desequilibrada, com excesso de novilhas e poucas vacas em produção. Isso aumenta o custo fixo, diminui a produtividade por hectare e eleva as emissões por kg de leite.  

Já o trabalho de Carvalho et al. demonstrou que vacas com intervalos entre partos mais curtos, ou seja, mais produtivas e com desempenho reprodutivo superior, contribuíram para a redução da pegada de carbono por kg de leite. Isso porque produzem mais leite ao longo de sua vida, diluindo as emissões associadas à criação, ao manejo e à nutrição. Em outras palavras: longevidade não é apenas uma vantagem econômica, é uma estratégia ambiental. 

Dados que demonstram estes resultados foram reunidos e contextualizados no artigo “Eficiência reprodutiva e sustentabilidade”, evidenciando como decisões estratégicas no manejo influenciam diretamente os indicadores ambientais e econômicos da produção leiteira. Os autores reforçam a importância de enxergar o rebanho como um sistema dinâmico e estratégico. Melhorar a estrutura não é apenas uma questão de manejo, mas uma decisão que transforma três grandes pilares (Figura 1).

Quando conectamos esses dados às ferramentas de análise de emissões disponíveis para o setor, percebemos que a estrutura do rebanho é uma das variáveis que mais influenciam a pegada de carbono do leite. E o mais importante: é também uma das variáveis mais acessíveis para melhoria com planejamento, acompanhamento e decisões bem-informadas. 

Sustentabilidade se faz no ciclo completo: do planejamento reprodutivo à permanência das vacas boas no rebanho. Essa escolha, feita de forma consistente, é o que transforma a técnica em resultado, e a eficiência em impacto.  

Dieta balanceada: alimento certo, impacto menor 

A nutrição animal tem um papel direto nas emissões de metano e na excreção de nitrogênio, dois fatores relevantes para a pegada ambiental da pecuária leiteira. Ajustes na dieta do rebanho podem melhorar a digestibilidade dos alimentos, reduzir perdas e transformar o manejo nutricional em uma alavanca de sustentabilidade. 

Estudos científicos compilados no artigo “Impacto da dieta na emissão de gases de efeito estufa e excreção de nitrogênio na pecuária”, reforçam o papel estratégico da nutrição na sustentabilidade da produção de leite. Dietas com maior proporção de concentrados e volumosos de alta digestibilidade, como a silagem de milho bem manejada, podem reduzir significativamente a produção de metano entérico e a excreção de nitrogênio pelas fezes e urina dos animais, e, ainda, aprimorar a produtividade. 

Outro aspecto relevante é o uso estratégico de aditivos, fontes de proteína e manejo de resíduos. A composição da dieta influencia diretamente a fermentação ruminal, o tempo de retenção do alimento no trato digestivo e a intensidade de emissão de metano. A revisão científica retratada no eBook “Aditivos alimentares para mitigação de metano: ciência aplicada e perspectivas para a pecuária” destaca que aditivos como nitratos, taninos e óleos essenciais podem interferir em vias metabólicas específicas, reduzindo a produção de metano sem comprometer o desempenho animal. Já o eBook “Desafios e soluções para a pecuária sustentável: Estratégias para a redução das emissões de metano na produção de leite” reforça que essas estratégias devem ser adaptadas ao sistema de produção e associadas ao monitoramento técnico e zootécnico contínuo para gerar impacto ambiental positivo real. 

De forma complementar, um plano nutricional bem estruturado contribui diretamente para a saúde ruminal, melhora as taxas de prenhez e favorece a longevidade das vacas, fortalecendo os pilares de um sistema verdadeiramente sustentável. Decisões nutricionais bem fundamentadas reduzem a emissão de gases de efeito estufa, otimizam o uso de insumos, aliviam a pressão sobre o solo e aumentam a eficiência econômica da produção leiteira. 

Em resumo, a dieta da vaca vai além de produtividade e custo: é também uma ferramenta de gestão ambiental.

Solo vivo: a infraestrutura invisível da sustentabilidade 

A base de qualquer sistema de produção sustentável começa onde poucos olhos alcançam: no solo. Quando o solo está vivo, rico em matéria orgânica, com alta diversidade biológica e boa cobertura vegetal, ele atua como uma verdadeira infraestrutura de resiliência. Absorve e armazena carbono, retém água com mais eficiência, sustenta raízes profundas, reduz perdas por erosão e contribui para a produtividade das forragens sem depender de volumes excessivos de insumos.  Um exemplo é o artigo “Pecuária regenerativa: o que muda quando floresta, solo e carbono entram no centro da produção?”, que reúne evidências sobre o potencial de práticas como adubação orgânica, rotação de pastos, manejo da altura e uso de bioinsumos para aumentar a matéria orgânica do solo, uma métrica cada vez mais valorizada por projetos de carbono e fundos ESG.  

Por outro lado, o solo degradado compromete toda a cadeia. Ele exige mais insumos, reduz o valor nutritivo das pastagens, amplia a pressão sobre áreas de expansão e, principalmente, aumenta a vulnerabilidade da fazenda às mudanças climáticas. Como aponta o artigo “Mensurando a sustentabilidade na fazenda leiteira”, solos frágeis e descobertos estão diretamente associados a ciclos produtivos menos eficientes e maior pegada de carbono do leite produzido.

A adoção de práticas regenerativas representa uma mudança de mentalidade: o solo deixa de ser um meio neutro e passa a ser protagonista na geração de valor. E isso exige indicadores. Monitorar como áreas bem manejadas, em conjunto com uma estrutura de rebanho eficiente, influenciam a sustentabilidade da fazenda é o que permite gerar evidências reais e não apenas percepções sobre o impacto das decisões no campo (Figura 2). 

Investir em solo vivo é investir no que não se vê, mas que sustenta tudo o que se colhe. A sustentabilidade, de janeiro a janeiro, começa no chão, mas não termina nele.

Dados que transformam cuidado em argumento 

Nenhuma das melhorias citadas ao longo deste texto será aproveitada se não for medida, registrada e organizada. Ferramentas integradoras de informações têm ganhado espaço justamente por permitirem visualizar conexões entre indicadores diversos, como bem-estar animal, pegada de carbono, produtividade, eficiência reprodutiva e uso do solo.  

Quando cruzamos essas informações, conseguimos entender quais práticas realmente sustentam bons resultados, e quais outras precisam ser ajustadas. Além disso, a possibilidade de compor indicadores personalizados, adaptados à realidade de cada propriedade, fortalece a tomada de decisão baseada em dados. Facilita também a quantificação do resultado de muito trabalho e dedicação a algo nem sempre tangível, e que precisa ser orientado por evidências concretas, não por suposições. 

Sustentabilidade real nasce do possível 

Sustentabilidade real nasce do campo. Do cotidiano. Do diagnóstico, da escuta, da escolha por manter uma vaca produtiva por mais tempo. Ela está no pasto, na lavoura, no caderno de anotações ou no celular, que virou ferramenta de trabalho. Nasce da confiança entre técnico e produtor. Está, enfim, onde as coisas realmente acontecem.

Para 2026, o desafio talvez não seja adicionar mais metas, mas sustentar o que já começou. Como canta a música “De janeiro a janeiro”, “o universo conspira a nosso favor”. Temos nas mãos a oportunidade de um novo ano para construir fazendas sustentáveis, com dedicação, persistência, confiança e colaboração. 

 

Fonte: Revista Leite Integral

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