Em meio à tensão global, o agro brasileiro deve bater novo recorde de exportações

Em meio à tensão global, o agro brasileiro deve bater novo recorde de exportações

15 de julho, 2022

O valor das exportações do agronegócio brasileiro no primeiro semestre de 2022, de US$ 79 bilhões, cresceu cerca de 30% em relação ao mesmo período de 2021 (US$ 61 bilhões). Se o país mantiver esse nível de crescimento no segundo semestre, mesmo considerando as reduções de preço que vêm sendo observadas em algumas das principais commodities exportadas, o total exportado pelo setor neste ano pode se aproximar de US$ 140 bilhões até dezembro, a preços correntes. Isso significa um novo recorde nas exportações agrícolas brasileiras— até hoje, o maior valor na série histórica foi de US$ 120 bilhões, em 2021.

Em 2021, o recorde no valor exportado ocorreu, sobretudo, em razão do crescimento nos preços internacionais. Naquele ano, o índice de quantum das exportações permaneceu estável em relação a 2020, enquanto a taxa de câmbio apresentou uma pequena variação, de 5%. Já o índice de preço subiu 21% de 2020 a 2021.

Em 2022, permanecendo constante o que foi observado no primeiro semestre, a tendência é de pequena retração na taxa de câmbio (-6%) e de crescimento no índice de preço das exportações do agronegócio de 22% em relação aos já elevados preços internacionais registrados em 2021.

Portanto, novamente, o aumento nos preços internacionais é o grande responsável pelo crescimento no valor exportado do setor. O comportamento dos preços em 2022, por sua vez, foi motivado principalmente pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que ocasionou restrições na oferta de alimentos não apenas nos países afetados pelo conflito, como também em outros países que adotaram políticas de restrições à exportação (veja mais aqui).

A taxa de câmbio, apesar de ligeira redução em 2022 em relação a 2021, também continua alta, contribuindo para os elevados preços recebidos pelos produtores agrícolas pelos itens importados e incentivando, portanto, o aumento no volume exportado.

Justifica também a projeção recorde neste ano o crescimento de safras de produtos importantes na pauta, como o milho e o café.

Alguns produtos chamaram atenção neste primeiro semestre. Um deles é o complexo soja, que apresentou crescimento desigual entre os produtos farelo, óleo e grão. Enquanto as exportações brasileiras de óleo de soja e de farelo cresceram, respectivamente, 136% e 48% no primeiro semestre de 2022 em relação ao mesmo período de 2021 — um provável impacto imediato da guerra —, as exportações do grão seguiram o crescimento observado em anos anteriores, de cerca de 25% no período.

Os mercados de milho e trigo também foram diretamente afetados pela atual conjuntura e apresentaram crescimento expressivo neste primeiro semestre em relação igual período do ano anterior. A taxa foi de 147% e 525%, respectivamente, para o milho e o trigo. Apesar de não ser um produto de destaque nas exportações brasileiras, o trigo se destaca por entrar neste ano na pauta exportadora do país — com a ressalva de que a produção brasileira desse grão ainda é insuficiente atender à demanda interna.

O café também apresentou crescimento no primeiro semestre, acima do observado no mesmo período em anos anteriores. Isso ocorreu tanto para o café verde quanto para o torrado.

Entre as carnes, houve crescimento acentuado também no valor das exportações de carne bovina e de frango, de 53% e 37%, respectivamente, no primeiro semestre deste ano em relação ao primeiro semestre do ano anterior. Já na carne suína, houve redução no valor exportado de -18% — a rápida recomposição dos rebanhos chineses após a crise da peste suína africana influenciou nesse cenário.

Outros produtos cujo valor exportado caiu no primeiro semestre de 2022 em relação ao mesmo período de 2021 foram o algodão e o açúcar. Comportamento contrário ao verificado no primeiro semestre de anos anteriores, quando as exportações desses produtos cresceram em comparação a igual período do ano anterior.

É interessante observar o comportamento das importações de fertilizantes no país, impactadas também pelos conflitos internacionais. Apesar da crise de oferta mundial do produto, o valor das importações brasileiras dos produtos desse segmento no primeiro semestre cresceu 177% em relação ao mesmo período de 2021. Entretanto, grande parte desse aumento foi ocasionado pela alta no preço desses insumos. Ainda assim, considerando apenas a quantidade importada, houve um aumento de cerca de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior. Essa variação positiva ocorreu, sobretudo, em fertilizantes potássicos. Isso indica maiores investimentos e um possível crescimento da próxima safra de grãos no país.

Finalmente, analisando o comportamento dos destinos das exportações brasileiras do agronegócio neste ano para os maiores países compradores e comparando com o primeiro semestre de 2021, o ano de 2022 apresentou um crescimento significativo no valor exportado para regiões e países específicos. Por exemplo, o valor das exportações do setor cresceu 42% para a União Europeia, 198% para a Índia, 41% para o Japão, 54% para a Argentina e 59% para os países da região do Oriente Médio e Norte da África, conhecidos pela sigla Mena (Middle East and North Africa). Nessas regiões, o crescimento observado no primeiro semestre de 2022 em comparação com o mesmo período de 2021 foi muito superior ao dos anos anteriores.

Além desses destinos, é interessante notar que as exportações do agronegócio brasileiro para a Rússia, que haviam caído em anos anteriores, no primeiro semestre de 2022 tiveram uma alta de 45% em relação ao mesmo período de 2021. Já as exportações para a Ucrânia, que haviam aumentado em 2020, sofreram uma queda de -69% no mesmo período.

 Os dados de exportação da atual conjuntura apresentados aqui reforçam que o ambiente internacional tem se tornado cada vez mais complexo. Mudanças observadas nas duas últimas décadas, com o aumento da demanda das economias emergentes, e as questões mais recentes, como o cenário de guerra, geram perturbações na demanda e na oferta globais, trazendo à tona a necessidade de uma leitura estratégica do posicionamento do agronegócio brasileiro. A conjuntura de preços globais atualmente mostra-se favorável, mas a alta de fertilizantes e a manutenção desse quadro no médio prazo são pontos de atenção. Para uma inserção competitiva e um crescimento sustentável, é necessária uma visão internacional estratégica, conforme destacado no documento "Políticas públicas para a inserção competitiva e sustentável do agronegócio Brasileiro no mundo", lançado pelo Insper Agro Global em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

 

Escrito por: Cinthia Cabral da Costa (pesquisadora da Embrapa Instrumentação e do Insper Agro Global)

Fonte: Insper

Disponível em: https://www.insper.edu.br/noticias/em-meio-a-tensao-global-o-agro-brasileiro-deve-bater-novo-recorde-de-exportacoes/?utm_source=newsletter&utm_medium=email_materias&utm_campaign=insperagro11

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